Os recentes recordes de calor em Belo Horizonte levantaram preocupações que vão além das mudanças climáticas, levando a Polícia Civil de Minas Gerais a investigar um possível crime ambiental na área do Belvedere, localizada na Região Centro-Sul da cidade. A investigação busca entender se o aumento das construções de prédios na região está afetando a ventilação natural de Belo Horizonte.
Especialistas alertam para a criação de uma “barreira artificial” que causa a elevação das temperaturas. Esse fenômeno é agravado pela falta de árvores e espaços verdes, enquanto relatórios indicam que 2026 poderá ser o ano mais quente já registrado.
A Polícia Civil iniciou sua investigação na última semana de 2025. A corporação instaurou um procedimento investigativo através da Central Estadual do Plantão Digital. O caso foi encaminhado ao Departamento Estadual de Investigação de Crimes Contra o Meio Ambiente (Dema). O objetivo é analisar como as novas construções impactam as temperaturas na capital. O governo de Minas Gerais solicitou informações sobre a investigação, mas a Polícia Civil afirmou apenas que os trabalhos estão em andamento.
A verticalização da área do Belvedere e o adensamento de bairros próximos, como Nova Lima, têm sido criticados por especialistas. Eles argumentam que a construção de prédios impede a ventilação necessária para esfriar a cidade. O professor Wellington Lopes Assis, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), destaca que o aumento da temperatura em Minas Gerais é influenciado pelo calor que vem do litoral do Rio de Janeiro, especialmente desde a década de 1980. Ele observa que a construção intensa na Região Centro-Sul e nas áreas adjacentes de Nova Lima tem contribuído para esse aquecimento, já que a presença de vários edifícios atrapalha a dispersão do calor.
Além da questão da ventilação, a vegetação local tem sido substituída por concreto, o que também provoca o aumento da temperatura e a redução da umidade. O professor menciona que as construções não foram acompanhadas de estudos que avaliassem seus impactos, o que poderia ter ajudado a prevenir esses problemas.
Estudos realizados há dez anos já previam que o aumento da construção na região levaria ao aumento das temperaturas. A geógrafa Lilian Machado, que se dedicou a esse tema em sua pesquisa de mestrado, alerta que o Belvedere, que historicamente teve temperaturas mais amenas, está enfrentando um aumento no calor devido à verticalização. Ela defende que a região deve ser preservada para ocupações menores, pois os novos edifícios dificultam a circulação do ar fresco e aumentam o aquecimento.
Em 2011, o Ministério Público de Minas Gerais já havia procurado barrar construções na área, por considerar que ela possui valor ambiental e paisagístico. Em 2017, a Justiça determinou que 11 empreendedores, que descumpriram a decisão anterior, pagassem um total de quase R$ 28 milhões em indenização.
Lilian Machado também expressa preocupações sobre novos desenvolvimentos no Bairro Bellagio, que está próximo a áreas de preservação ambiental. A construção de novas vias na região, segundo ela, visa facilitar a verticalização e agravar ainda mais os problemas de temperatura.
O calor em Belo Horizonte aumentou 3°C neste século, alcançando uma média anual de 24,5°C em 2024, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). O crescimento desordenado das áreas urbanas, especialmente em locais com pouco verde e onde os córregos foram canalizados, tem gerado desconforto térmico para a população.
As previsões globais indicam um aumento contínuo das temperaturas, e especialistas alertam para os efeitos do aquecimento associado à urbanização. A Prefeitura de Belo Horizonte informou que está implementando ações para mitigar os problemas. Entre os projetos estão a ampliação da arborização urbana, recuperação de nascentes e criação de protocolos para lidar com eventos de calor extremo.
O Belvedere é um bairro de classe alta em Belo Horizonte e é conhecido por seu relevo elevado, que varia de 1.100 a 1.270 metros. Ele se destaca pela temperatura mais amena em comparação com áreas mais baixas da cidade. O bairro é dividido em três fases: as duas primeiras têm edificações mais baixas, enquanto a terceira etapa é caracterizada pela construção de grandes torres.
Diante de todas essas questões, a administração municipal busca equilibrar desenvolvimento urbano e preservação ambiental, com ações direcionadas à melhoria da qualidade de vida da população.