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O drama dos venezuelanos em Belo Horizonte

Em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, um grupo de indígenas Warao, imigrantes da Venezuela, vive em condições precárias. Eles ocupam um terreno sem pavimentação, onde barracas feitas com madeira e lona estão amontoadas. No local, não há acesso regular a água potável, energia elétrica ou saneamento básico. Os 258 indígenas, que vivem em 40 famílias, se mudaram para a área em agosto de 2023, segundo informações do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG).

Eulio Medina Warao, de 40 anos, é um dos moradores. Ele chegou ao Brasil em 2020 com a esposa e quatro filhos, buscando melhores condições de vida. Durante uma visita ao local, contou que a decisão de deixar sua terra natal não foi fácil, mas a repressão do governo venezuelano o forçou a buscar um novo lar. Apesar da recente queda de Nicolás Maduro, ele não vê uma perspectiva de voltar.

O MPMG classificou a situação dos Warao como de emergência humanitária. Em uma visita técnica, representantes de várias instituições, incluindo a Prefeitura de Betim e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), constataram a vulnerabilidade vivida pela comunidade. A insegurança alimentar é uma das principais preocupações, já que muitas famílias dependem de doações de cestas básicas e de mendicância, pois não conseguem acesso a programas sociais suficientes para garantir uma vida digna.

As moradias são pequenas e inadequadas, abrigando famílias numerosas. Quando chove, os interiores ficam alagados; quando faz calor, o calor se torna insuportável. Antonio Sapata Warao, de 36 anos, compartilhou que o colchão da família molhou após uma chuva recente. Ele e outros moradores pedem por materiais para construir habitações mais seguras e por itens de higiene básicos.

A saúde da comunidade também é uma preocupação. Desde 2024, a Prefeitura de Betim tem enviado equipes de saúde para prestar assistência e incluir os indígenas em campanhas de vacinação. Entretanto, essas visitas enfrentam desafios culturais e resistência. A Funai e a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) também estão envolvidas na assistência à saúde dos Warao.

Além da falta de saneamento básico, a Prefeitura informa que realiza a coleta de lixo na área e está em contato com a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) para discutir o fornecimento de água. O Centro de Referência de Assistência Social (Cras) está ajudando as famílias a acessarem benefícios sociais e a se registrarem no Cadastro Único.

A situação educacional das crianças Warao requer atenção. Eulio mencionou que há cerca de 64 crianças de até 14 anos na comunidade. Algumas estão matriculadas na escola, mas enfrentam bullying por serem imigrantes e indígenas. A Prefeitura tem trabalhado para identificar crianças em idade escolar e garantir que a falta de documentação não seja um obstáculo.

Os homens da comunidade têm encontrado trabalho, principalmente na construção civil, uma fonte importante de renda que também oferece transporte. No entanto, a falta de oportunidades para exercer suas profissões anteriores é uma barreira para muitos, como o professor John Vargas, que estava com seu título cassado e gostaria de ensinar as crianças Warao.

As mulheres também enfrentam dificuldades devido à falta de material para artesanato, o que impede novas fontes de renda e coloca em risco tradições ancestrais. A comunidade anseia por um local definitivo para viver, uma questão que está sendo discutida judicialmente. O terreno em que estão ocupando é alvo de uma Ação de Reintegração de Posse na Justiça estadual.

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais está acompanhando a situação e agendou uma nova reunião para vistoriar um terreno que pode ser doado para os Warao. A expectativa é de que o processo avance, mas muitos indígenas afirmam que, mesmo com a oferta de uma nova terra, é fundamental que haja suporte para melhorar suas condições de vida.

Internamente, a comunidade enfrenta divisões entre grupos de diferentes regiões, o que tem causado tensões. Além disso, há preocupações sérias relacionadas à saúde mental e ao bem-estar das crianças, com registros de problemas graves como suicídios e abuso sexual. O cenário é complexo, com múltiplos desafios que precisam ser enfrentados com urgência.

Outro grupo de Warao está em Montes Claros, buscando moradia e condições de vida. 41 imigrantes vivem em um abrigo improvisado e manifestaram o desejo de trabalhar e permanecer na cidade. A Prefeitura busca alternativas para acomodá-los, mas não pretende arcar com aluguéis. Apesar das dificuldades, os venezuelanos continuam a receber apoio do Programa Bolsa Família, um benefício inexistente em seu país de origem.