Portal Notícias BH»Notícias»Criaturas da mente: a dificuldade de sonhar

Criaturas da mente: a dificuldade de sonhar

Documentário “Criaturas da Mente” Explora o Inconsciente e o Mundo dos Sonhos

O filme “Criaturas da Mente”, do cineasta pernambucano Marcelo Gomes, estreia em poucos cinemas e pode passar despercebido por muitos. Essa obra é um documentário que mistura poesia e pesquisa, revelando uma jornada através do inconsciente e dos sonhos.

A Origem da Ideia

Marcelo Gomes desenvolveu o filme a partir de sua própria dificuldade de sonhar, um problema que começou durante a pandemia de covid-19. Em sua busca por entender essa questão, ele dialoga com especialistas e relevantes figuras do pensamento contemporâneo.

Investigação Multidisciplinar

Ao longo de uma hora e meia, o documentário nos leva a uma exploração dos diversos estados alterados de consciência. Com a orientação do neurocientista Sidarta Ribeiro, Gomes reúne conversas com uma gama de pensadores, incluindo o psicanalista Waldemar Magaldi e o escritor indígena Ailton Krenak. O filme também apresenta a visão de Beth de Oxum, uma mãe de santo que fala sobre a presença de entidades espirituais em nossas vidas.

O documentário aborda temas diversos, desde a atividade onírica dos polvos até rituais indígenas e experiências psicodélicas, como aquelas com a ayahuasca. O que se busca entender nessa investigação é a riqueza das imagens que surgem em nossa mente, destacando a ideia de que há “gente dentro da gente”, como afirma Beth de Oxum.

Foco na Curiosidade e Inclusão

Marcelo Gomes conduz essas discussões com uma postura aberta e curiosa. Ele sempre se interessou pelo diálogo entre diferentes culturas e saberes. Ao longo de sua carreira, Gomes já apresentou filmes que retratam encontros de realidades diversas, como no longa “Cinema, Aspirinas e Urubus”, que mostra a jornada de um alemão e um sertanejo pelo nordeste.

Em “Criaturas da Mente,” o cineasta também reflete sobre como as imagens são criadas inconscientemente, iniciando essa jornada desde seu primeiro curta-metragem, “Maracatu, Maracatus,” que documenta um ritual afro-indígena.

A Linguagem Visual do Cinema

O filme não se limita a depoimentos de pessoas frente à câmera. Há uma rica diversidade de imagens que vão desde cenas de filmes até manifestações culturais. Momentos de capoeira, rituais, danças, e a natureza brasileira são todos apresentados de maneira a ilustrar a transição entre o estado de sono e o estado de vigília.

Cinema como Espaço de Revelação

Um dos pontos altos da obra é como o cinema é apresentado como um meio poderoso para explorar e expressar imagens que surgem do inconsciente. Nessa perspectiva, o filme é menos uma “fábrica de sonhos” e mais uma “vitrine de sonhos”.

Uma das cenas marcantes revive o início do primeiro longa de Gomes, mostrando a beleza do sertão e como as imagens emergem, semelhante ao processo de revelação de uma foto. Essa metáfora simboliza a descoberta das imagens que habitam nossos sonhos.

Um Chamado à Reflexão

“Criaturas da Mente” convida o público a refletir sobre a necessidade de abrir a ciência a outros saberes, ressaltando que o entendimento humano deve ser ampliado para incluir culturas diversas e diferentes perspectivas sobre os mistérios da existência. Marcelo Gomes, em sua abordagem, parece ecoar a ideia expressa na música de Paulinho da Viola: “As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender”.

O documentário não apenas impressiona pela sua estética e conteúdo, mas também pela sua busca exploratória e inclusiva, potencializando a compreensão de temas tão complexos e universais como os sonhos e a consciência.