Idoso que toma muitos remédios: o que fazer com a gaveta cheia de caixas
Uma gaveta com onze caixas e cinco médicos que nunca a olharam inteira: por onde a revisão começa.
Imagine uma gaveta de cozinha em Belo Horizonte com onze caixas de remédio: três para pressão receitadas em anos diferentes, um para o estômago que protege de outro que já foi suspenso, um calmante que a vizinha indicou e dois que ninguém lembra para que servem. O dono da gaveta tem 79 anos, sente tontura toda manhã e caiu duas vezes. Nenhum dos cinco médicos que ele vê olhou a gaveta inteira. O idoso que toma muitos remédios é o caso mais comum da geriatria, e o geriatra começaria por ela.
Este texto explica o que é polifarmácia, por que ela é mais perigosa depois dos 65, como os remédios se acumulam sem ninguém perceber, quais são os mais problemáticos para idosos, como é feita a revisão e a retirada gradual, e o que a família pode fazer antes mesmo da consulta.
O que é polifarmácia
O termo descreve o uso de cinco ou mais medicamentos de forma contínua. Não é sempre errado: um idoso com diabetes, hipertensão e insuficiência cardíaca pode precisar de cinco. O problema é quando parte da lista não tem mais indicação, ou quando um remédio existe só para tratar o efeito colateral de outro.
Depois dos 65, fígado e rins eliminam os remédios mais devagar, a proporção de gordura e água no corpo muda e o cérebro fica mais sensível. A mesma dose que era segura aos 50 pode causar confusão, queda e sangramento aos 80.
Cada medicamento acrescentado aumenta a chance de interação com os anteriores.
Há ainda o efeito em cascata: um remédio causa tontura, a tontura vira queixa, a queixa ganha um remédio para tontura, que causa sonolência, e assim por diante. A gaveta cresce sem que nenhuma doença nova tenha aparecido.
Idoso que toma muitos remédios: os que mais preocupam
A tabela reúne as classes que critérios internacionais para idosos, como os da Sociedade Americana de Geriatria, apontam como de risco.
| Classe | Uso comum | Risco no idoso |
|---|---|---|
| Benzodiazepínicos (calmantes para dormir) | Insônia, ansiedade | Queda, confusão, dependência |
| Anti-inflamatórios em uso contínuo | Dor articular | Sangramento digestivo, piora renal, pressão alta |
| Antialérgicos de primeira geração | Alergia, "para dormir" | Confusão, retenção urinária, boca seca |
| Relaxantes musculares | Dor nas costas | Sonolência e queda, com pouco benefício |
| Protetores gástricos por anos | Azia, "proteger do outro remédio" | Fratura, deficiência de vitamina B12, infecção intestinal |
| Vários anti-hipertensivos somados | Pressão alta | Pressão baixa ao levantar e queda |
Nenhum desses deve ser suspenso por conta própria; o que a tabela mostra é o que precisa de revisão. Encontrar um geriatra em Belo Horizonte na lista de profissionais cadastrados na capital é o primeiro passo para essa revisão ser feita por quem tem o método para ela.
Como os remédios se acumulam
A sequência abaixo é a história típica de uma gaveta cheia.
- Cada especialista receita para a sua área sem saber a lista completa.
- Um efeito colateral é tratado como doença nova e ganha remédio próprio.
- Uma receita antiga continua sendo renovada na farmácia sem consulta.
- Entram os de venda livre: analgésico diário, antialérgico para dormir, chá "natural".
- Uma internação acrescenta dois ou três, que ninguém retira na alta.
- Ninguém é o médico principal, então ninguém tira nada.
Como é feita a revisão
O geriatra pede as caixas, não a lista, porque a lista costuma estar errada. Para cada remédio pergunta quem receitou, para quê, há quanto tempo e se o motivo ainda existe. Cruza com os exames, com as quedas e com a pressão medida em pé.
Depois classifica: manter, ajustar dose, trocar por opção mais segura ou retirar. A retirada é gradual e uma de cada vez, para saber o que fez efeito.
O resultado costuma ser uma lista menor e um idoso menos tonto em poucas semanas.
A revisão também simplifica o horário: quando o mesmo efeito pode ser obtido com dois comprimidos de manhã em vez de cinco espalhados pelo dia, o idoso erra menos e a família confere com mais facilidade.
Por que retirar devagar?
Parar um calmante de anos de uma vez causa abstinência e insônia pior; parar um remédio de pressão de repente pode subir a pressão. Por isso a desprescrição segue um plano, com redução por etapas e retorno marcado.
A família participa: anota como o idoso ficou a cada etapa e avisa o médico antes do retorno se algo piorou.
Retirar é tratamento, não abandono.
Quando o idoso resiste a largar um remédio de anos, o médico costuma negociar uma etapa de cada vez, mostrando na consulta seguinte o que mudou: a tontura que sumiu, a noite que ficou melhor sem o calmante. O resultado visível convence mais do que o argumento.
O que a família faz antes da consulta
Juntar todas as caixas numa sacola, inclusive as de venda livre e as que "ele quase não toma". Anotar quem receitou cada uma, se souber. Registrar as quedas e as tonturas dos últimos meses.
Não suspender nada por conta própria, mesmo o que parece inútil. Levar as dúvidas escritas, e uma foto de cada receita, para o médico saber a dose que foi prescrita e não só a que está sendo tomada.
Um único médico coordenando é o que impede a gaveta de encher de novo, porque cada receita nova passa a ser conferida contra a lista inteira antes de ir para a farmácia.
Depois da revisão, a regra da casa passa a ser simples: nenhum remédio novo entra sem o geriatra saber, inclusive o "natural" da farmácia e o que o vizinho indicou.
Perguntas frequentes sobre idoso que toma muitos remédios
Quantos remédios é polifarmácia?
Cinco ou mais de uso contínuo. Não é sempre errado, mas exige revisão, porque cada um acrescenta risco de interação.
Quais remédios o idoso deve evitar?
Calmantes benzodiazepínicos, anti-inflamatórios contínuos, antialérgicos antigos, relaxantes musculares e protetores gástricos por anos são os que mais aparecem nos critérios para idosos. A decisão é do médico.
Posso parar um remédio por conta própria?
Não. A retirada é gradual e acompanhada; parar de repente pode causar abstinência ou descompensar a doença.
O que levar na consulta?
Todas as caixas, inclusive as de venda livre, os exames recentes e a anotação de quedas e tonturas.
Em quanto tempo o idoso melhora?
Tontura e sonolência costumam melhorar em semanas depois da retirada dos remédios de risco.
O geriatra troca os outros médicos?
Ele coordena. Os especialistas continuam, mas passam a receitar sabendo da lista inteira.
Resumo
Polifarmácia é o uso de cinco ou mais remédios, e no idoso ela vira tontura, queda, confusão e sangramento porque o corpo elimina os medicamentos mais devagar. A lista cresce por especialistas que não se falam, efeitos colaterais tratados como doença e receitas renovadas sem consulta. No idoso que toma muitos remédios, o geriatra revisa caixa por caixa, retira o que sobra de forma gradual e passa a coordenar os outros médicos. A família ajuda juntando todas as caixas, anotando quedas e não suspendendo nada por conta própria.

