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Idoso que toma muitos remédios: o que fazer com a gaveta cheia de caixas

Uma gaveta com onze caixas e cinco médicos que nunca a olharam inteira: por onde a revisão começa.
Por · · 6 min de leitura
Frascos de remédio laranja abertos com comprimidos brancos espalhados sobre a mesa

Imagine uma gaveta de cozinha em Belo Horizonte com onze caixas de remédio: três para pressão receitadas em anos diferentes, um para o estômago que protege de outro que já foi suspenso, um calmante que a vizinha indicou e dois que ninguém lembra para que servem. O dono da gaveta tem 79 anos, sente tontura toda manhã e caiu duas vezes. Nenhum dos cinco médicos que ele vê olhou a gaveta inteira. O idoso que toma muitos remédios é o caso mais comum da geriatria, e o geriatra começaria por ela.

Este texto explica o que é polifarmácia, por que ela é mais perigosa depois dos 65, como os remédios se acumulam sem ninguém perceber, quais são os mais problemáticos para idosos, como é feita a revisão e a retirada gradual, e o que a família pode fazer antes mesmo da consulta.

O que é polifarmácia

O termo descreve o uso de cinco ou mais medicamentos de forma contínua. Não é sempre errado: um idoso com diabetes, hipertensão e insuficiência cardíaca pode precisar de cinco. O problema é quando parte da lista não tem mais indicação, ou quando um remédio existe só para tratar o efeito colateral de outro.

Depois dos 65, fígado e rins eliminam os remédios mais devagar, a proporção de gordura e água no corpo muda e o cérebro fica mais sensível. A mesma dose que era segura aos 50 pode causar confusão, queda e sangramento aos 80.

Cada medicamento acrescentado aumenta a chance de interação com os anteriores.

Há ainda o efeito em cascata: um remédio causa tontura, a tontura vira queixa, a queixa ganha um remédio para tontura, que causa sonolência, e assim por diante. A gaveta cresce sem que nenhuma doença nova tenha aparecido.

Idoso que toma muitos remédios: os que mais preocupam

A tabela reúne as classes que critérios internacionais para idosos, como os da Sociedade Americana de Geriatria, apontam como de risco.

ClasseUso comumRisco no idoso
Benzodiazepínicos (calmantes para dormir)Insônia, ansiedadeQueda, confusão, dependência
Anti-inflamatórios em uso contínuoDor articularSangramento digestivo, piora renal, pressão alta
Antialérgicos de primeira geraçãoAlergia, "para dormir"Confusão, retenção urinária, boca seca
Relaxantes muscularesDor nas costasSonolência e queda, com pouco benefício
Protetores gástricos por anosAzia, "proteger do outro remédio"Fratura, deficiência de vitamina B12, infecção intestinal
Vários anti-hipertensivos somadosPressão altaPressão baixa ao levantar e queda

Nenhum desses deve ser suspenso por conta própria; o que a tabela mostra é o que precisa de revisão. Encontrar um geriatra em Belo Horizonte na lista de profissionais cadastrados na capital é o primeiro passo para essa revisão ser feita por quem tem o método para ela.

Como os remédios se acumulam

A sequência abaixo é a história típica de uma gaveta cheia.

  1. Cada especialista receita para a sua área sem saber a lista completa.
  2. Um efeito colateral é tratado como doença nova e ganha remédio próprio.
  3. Uma receita antiga continua sendo renovada na farmácia sem consulta.
  4. Entram os de venda livre: analgésico diário, antialérgico para dormir, chá "natural".
  5. Uma internação acrescenta dois ou três, que ninguém retira na alta.
  6. Ninguém é o médico principal, então ninguém tira nada.

Como é feita a revisão

O geriatra pede as caixas, não a lista, porque a lista costuma estar errada. Para cada remédio pergunta quem receitou, para quê, há quanto tempo e se o motivo ainda existe. Cruza com os exames, com as quedas e com a pressão medida em pé.

Depois classifica: manter, ajustar dose, trocar por opção mais segura ou retirar. A retirada é gradual e uma de cada vez, para saber o que fez efeito.

O resultado costuma ser uma lista menor e um idoso menos tonto em poucas semanas.

A revisão também simplifica o horário: quando o mesmo efeito pode ser obtido com dois comprimidos de manhã em vez de cinco espalhados pelo dia, o idoso erra menos e a família confere com mais facilidade.

Por que retirar devagar?

Parar um calmante de anos de uma vez causa abstinência e insônia pior; parar um remédio de pressão de repente pode subir a pressão. Por isso a desprescrição segue um plano, com redução por etapas e retorno marcado.

A família participa: anota como o idoso ficou a cada etapa e avisa o médico antes do retorno se algo piorou.

Retirar é tratamento, não abandono.

Quando o idoso resiste a largar um remédio de anos, o médico costuma negociar uma etapa de cada vez, mostrando na consulta seguinte o que mudou: a tontura que sumiu, a noite que ficou melhor sem o calmante. O resultado visível convence mais do que o argumento.

O que a família faz antes da consulta

Juntar todas as caixas numa sacola, inclusive as de venda livre e as que "ele quase não toma". Anotar quem receitou cada uma, se souber. Registrar as quedas e as tonturas dos últimos meses.

Não suspender nada por conta própria, mesmo o que parece inútil. Levar as dúvidas escritas, e uma foto de cada receita, para o médico saber a dose que foi prescrita e não só a que está sendo tomada.

Um único médico coordenando é o que impede a gaveta de encher de novo, porque cada receita nova passa a ser conferida contra a lista inteira antes de ir para a farmácia.

Depois da revisão, a regra da casa passa a ser simples: nenhum remédio novo entra sem o geriatra saber, inclusive o "natural" da farmácia e o que o vizinho indicou.

Perguntas frequentes sobre idoso que toma muitos remédios

Quantos remédios é polifarmácia?

Cinco ou mais de uso contínuo. Não é sempre errado, mas exige revisão, porque cada um acrescenta risco de interação.

Quais remédios o idoso deve evitar?

Calmantes benzodiazepínicos, anti-inflamatórios contínuos, antialérgicos antigos, relaxantes musculares e protetores gástricos por anos são os que mais aparecem nos critérios para idosos. A decisão é do médico.

Posso parar um remédio por conta própria?

Não. A retirada é gradual e acompanhada; parar de repente pode causar abstinência ou descompensar a doença.

O que levar na consulta?

Todas as caixas, inclusive as de venda livre, os exames recentes e a anotação de quedas e tonturas.

Em quanto tempo o idoso melhora?

Tontura e sonolência costumam melhorar em semanas depois da retirada dos remédios de risco.

O geriatra troca os outros médicos?

Ele coordena. Os especialistas continuam, mas passam a receitar sabendo da lista inteira.

Resumo

Polifarmácia é o uso de cinco ou mais remédios, e no idoso ela vira tontura, queda, confusão e sangramento porque o corpo elimina os medicamentos mais devagar. A lista cresce por especialistas que não se falam, efeitos colaterais tratados como doença e receitas renovadas sem consulta. No idoso que toma muitos remédios, o geriatra revisa caixa por caixa, retira o que sobra de forma gradual e passa a coordenar os outros médicos. A família ajuda juntando todas as caixas, anotando quedas e não suspendendo nada por conta própria.

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