Quando imagens de crimes como assaltos e ameaças se tornam públicas, a linguagem sobre os supostos culpados já não se sustenta. O que antes podia ser chamado de “suspeito” ou “alegado” agora se torna claro e inegável diante da realidade capturada pelas câmeras. O país, em meio a uma onda de violência, parece viver um documentário involuntário, e a antiga imprensa, que frequentemente usava termos mais brandos, agora se vê forçada a ser transparente.
As ruas, cansadas de eufemismos, expõem a verdade de maneira crua. Quando a evidência em vídeo supera as narrativas tradicionais, até as manchetes mudam, refletindo esta nova realidade.
Enquanto isso, os tribunais ganham um papel cada vez mais abrangente. O Supremo Tribunal Federal, em particular, tem acumulado funções que vão além do que se esperaria de um órgão judiciário. Nos últimos anos, essa instituição tem atuado em várias etapas do processo legal, desde investigações até julgamentos, passando pela acusação e defesa. Esse fenômeno leva à criação de um sistema judicial multifuncional, que muitas vezes se antecipa a decisões e ações possíveis, refletindo uma nova forma de justiça.
Durante anos, a mídia tradicional aplaudiu esse movimento, chamando-o de “defesa da democracia”. No entanto, esse processo gradativo pode estar minando os próprios pilares da liberdade de expressão. Quando abusos começaram a aparecer em suas próprias redações — como censura e intimação de jornalistas — a grande imprensa parecia ter dificuldade em perceber a gravidade da situação. Um momento de mudança se deu com a prisão de figuras controversas, levando alguns profissionais a questionar essa abordagem mais autoritária.
Uma reviravolta significativa ocorreu quando jornalistas foram assaltados enquanto estavam ao vivo, revelando uma realidade inquietante no meio do que deveria ser uma “normalidade democrática”. A verdade chocante é que muitos profissionais se viram obrigados a tratar como “suspeitos” aqueles que os ameaçaram com armas, mesmo em um contexto em que suas vidas estavam em risco. Agora, em várias coberturas, repórteres são obrigados a usar coletes à prova de balas, não para se proteger da polícia, mas para se defender de criminosos.
A crescente violência não pode ser ignorada por narrativas ideológicas ou palavras suaves. A realidade se impôs e, com isso, a imprensa aprendeu uma lição difícil. Em algumas emissoras, o que poderia ser um telejornal informativo se transformou em verdadeiras novelas, com repetições constantes da mesma história, como se não houvesse mais do que um único acontecimento significativo por dia em um país tão vasto.
O silêncio sobre a falta de diversidade nas pautas pode ser visto como uma tentativa de manter a segurança no emprego, mas isso não impede que o público questione as decisões editoriais. A insistência em apresentar uma única narrativa resulta em formatos de programação repetitivos, que não conseguem captar a complexidade do que acontece em uma nação tão grande e multifacetada.
Após tudo isso, resta aos cidadãos exigir da imprensa uma coerência que parece perdida. É fundamental que os veículos de comunicação reconheçam o óbvio, que a realidade não se limita a um único relato e que a liberdade de expressão deve ser total e irrestrita. A transformação do jornalismo em mera representação dramatizada de eventos, e a minimização da violência em palavras amenas, devem ser questionadas e corrigidas.
O despertar para essa nova realidade é um processo longo, mas já não é aceitável continuar com narrativas forçadas que distorcem os fatos. A responsabilidade da imprensa é, acima de tudo, com a verdade e com o público.
