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Brasília 66 anos: rock e rap revelam faces da capital

Brasília 66 anos: rock e rap revelam faces da capital

Brasília completa 66 anos como centro do poder político, mas foi na música que a capital encontrou uma de suas expressões mais marcantes. Ao longo das décadas, diferentes gerações transformaram o cotidiano da cidade em som, revelando estilos e realidades distintas que coexistem no mesmo território.

Rock dos anos 80

Nos anos 1980, em meio ao fim da Ditadura Militar no Brasil, jovens artistas encontraram no rock uma forma de expressão. Foi nesse contexto que surgiram bandas como a Plebe Rude. Philippe Seabra, vocalista e guitarrista da banda, afirmou: “Foi quando o momento encontrou o instante. O movimento punk estava explodindo no mundo enquanto nós estávamos perdidos neste entreposto burocrático no meio da savana brasileira durante uma ditadura. O punk nos deu nosso norte”. Segundo ele, a urgência política era inevitável. “Não tinha como ficar alheio ao que estava acontecendo. Brasília naquela época não nos dava escolha. A banda nasceu dessa urgência”.

Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, disse que o movimento nasceu de uma vivência coletiva. “O Capital começou junto com as outras bandas da nossa geração. Nós, Plebe Rude, Legião Urbana, Finis Africae e muitos outros éramos da mesma turma”. Ele apontou que o tédio e o contexto do Brasil contribuíram. “Estávamos no final do regime militar e havia uma sensação de estrangulamento”. As letras falavam do dia a dia e das angústias. “Sem saber que o que sentíamos era compartilhado por uma multidão”. Dinho afirmou que havia o desejo de desafiar os poderes constituídos. “Éramos incrivelmente pretensiosos, na medida em que achávamos que seríamos uma peça na engrenagem que faria o regime cair”.

O reconhecimento nacional veio de forma gradual. “As bandas da nossa turma foram sendo gravadas aos poucos. Em 1986, estávamos todos vendendo centenas de milhares de discos”. Dinho disse que o sucesso foi uma surpresa. Sobre a música ‘Música Urbana’, ele explicou que é sobre Brasília e o estado de espírito da turma. “Fala da rodoviária, da torre, da nossa inquietação”. Na opinião dele, “as melhores bandas do país são de Brasília”.

Para a Plebe Rude, o impacto ultrapassou o tempo. Seabra disse sobre ‘Até Quando Esperar’: “Quando dei por mim, tinha virado hino”. Ele lamentou que as letras ainda dialogam com o presente. “Muita coisa não mudou no Brasil”. Perguntado sobre qual música melhor traduziria a cidade, ele respondeu: ‘Brasília’. No livro O Cara da Plebe, ele descreve a capital como uma utopia idealizada que revelou contrastes profundos.

Hip-hop dos anos 90

Se o rock dos anos 80 revelou uma Brasília inquieta, a década seguinte trouxe o hip-hop. O Câmbio Negro trouxe para o centro a vivência das periferias do Distrito Federal. O rapper X afirmou: “O Câmbio Negro quis retratar a realidade do povo periférico, pobre, marginalizado, discriminado. Isso acontecia em todo o país e também aqui, tão próximos do poder e tão isolados dele”. A imagem que queriam construir era de protesto e politização. “Sempre contrastou com a visão da capital”.

Ele lembrou o choque entre a percepção externa e a realidade. “Quando a gente ia tocar em outros lugares, muita gente tinha aquela visão errônea: ‘pô, você mora em Brasília, todo dia você tropeça num político’. E a gente falava: ‘não, bicho, nossa realidade é outra'”. A escolha estética e narrativa nunca foi neutra. “Tem que ser dito de forma direta, nua, crua, muitas vezes de forma ácida”. Mesmo décadas depois, ele avalia que o cenário exige posicionamento. “Racismo, discriminação, violência — isso precisa ser falado, mostrado e combatido”.

Múltiplas realidades

A trajetória musical de Brasília revela uma cidade que vai além da imagem institucional. Enquanto o rock nasceu entre jovens do Plano Piloto, o rap expôs a realidade das regiões administrativas, como Ceilândia. X afirmou: “Cresci em barraco de madeira, sem esgotamento sanitário, sem água encanada. Queríamos mostrar que o povo periférico ainda hoje é tratado como cidadão de segunda ou terceira classe”. Essa diversidade de vozes ajuda a entender por que Brasília ocupa um lugar singular na música brasileira. Mais do que um estilo, a produção cultural da capital reflete contrastes, tensões e transformações que seguem em curso.